Conto de Grimm cuidadosamente pervertido por
Judite e Baco
Resumo
Partindo de um conto infantil conhecido, este texto procede à sua desinfestação moral. A fábula é usada como pretexto para observar, sem indulgência, a dissociação frequente entre trabalho, utilidade e reconhecimento. A viagem para Bremen enquadra uma análise implícita de hierarquias funcionais, visibilidade pública e apropriação do mérito, onde o que sustém raramente é celebrado. Não há moral nem redenção simbólica: apenas o contar de um mecanismo recorrente, reconhecível e estrutural, senão até estruturante.
Havia um burro velho que tinha passado a vida a carregar pesos. Quando percebeu que já não servia, saiu antes que o empurrassem. Disse que ia para Bremen tornar-se músico. Não porque acreditasse nisso, mas porque toda a fuga precisa de um destino plausível.
Na estrada foi encontrando outros como ele. Um cão gasto, um gato já sem préstimo, e por fim um galo demasiado convencido da sua importância. Todos iam para o mesmo lado, ou fingiam ir. O burro, habituado a cargas, não discutiu: “já que vou para Bremen…”. E levou-os.
Levou o cão, quando o passo falhava. Levou o gato, quando este já não se equilibrava. Levou sobretudo o galo, que se instalou no alto, confortável, certo de que aquela era a ordem natural das coisas. O burro aguentou. Sempre aguentara.
Chegados a Bremen, viram uma praça cheia de músicos. Decidiram tentar. Não tinham instrumentos nem ensaio. Fizeram o que sempre tinham feito: empilharam-se outra vez. O burro em baixo, a suportar tudo. O cão e o gato a servirem de intermediários cansados. O galo no topo, livre, visível, cheio de cor.
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| Os Músicos de Bremen Escultura na Rathaus de Bremen Tocar no burro dá sorte e polimento à escultura. |
O galo cantou e cantou. Alto. Claro. Não sabia fazer mais nada. Foi o único som reconhecível. As pessoas pararam, ouviram, aplaudiram. Ninguém perguntou pelo burro. Ninguém reparou no esforço invisível do cão e do gato. A estrutura não interessava. O que interessava era a voz estridente no alto.
O galo foi chamado a repetir. Sozinho. Subiu a um banco. Cantou. Palmas. Sorrisos. Comentários elogiosos. Tornou-se “o galo de Bremen” e foi adotado pela Câmara Municipal.
Os outros ficaram de lado. Tinham feito o trabalho todo. Só que não tinham feito o que dava nas vistas.
No fim deram-lhes comida suficiente para um. O galo comeu primeiro. Os restantes repartiram os restos. Não houve discussão. Não era novidade.
O burro, o gato e o cão... ninguém mais os viu.
E assim aprenderam: muitos trabalham para um cantar de galo. A glória vai para quem se vê. O suor fica em baixo. E Bremen não foi excepção nenhuma.
Posfácio
O que inquieta no conto original dos Grimm não é uma imoralidade explícita, mas a forma como o maravilhoso suspende a pergunta ética. A fábula funciona porque encanta: a astúcia parece virtude, a sobrevivência parece justiça, e o resultado parece bom. O maravilhoso não embeleza, anestesia o juízo. Enquanto opera, o leitor aceita o desfecho sem interrogar custos, perdas ou assimetrias.
Quando essa camada se dissolve, não surge automaticamente o justo. Surge primeiro o funcionamento. O pragmatismo descreve, não absolve. É então que o leitor é chamado a um gesto activo: a recusa da imoralidade quasi-orwelliana à maneira de O Triunfo dos Porcos, latente no texto dos Grimm, onde a libertação inicial conduz apenas a uma solução autossatisfeita, sem correcção moral, mera renovação do mal preexistente. O status quo ante permanece, mudam apenas os ocupantes.
O texto dos Grimm, afinal, não mostra justiça, mas antes autogratificação sem mais considerações. E o que dele emerge não é uma lição edificante, mas a exigência de não aceitar que funcionar, só por si, seja suficiente. A maturidade começa quando o encanto acaba e a pergunta permanece.
Corolários
"A m*rd* é a mesma, as moscas é que mudaram".
"Shit flows downstairs".

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