quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Quando a pergunta já não existe - 1

 Baco, Judite

Resumo

Alguns fenómenos resistem tanto à explicação fácil como à rejeição apressada. O caso do sangue de São Januário é tomado aqui não como prova religiosa nem como curiosidade histórica, mas como ponto de partida para uma reflexão sobre os limites do conhecimento. Criticam-se duas respostas simétricas — a credulidade e o cepticismo — entendidas como fechos prematuros do pensamento. Antes de explorar os desconhecidos, coloca-se uma questão prévia: é verdade que tudo pode ser conhecido? A resposta é negativa por razões formais, abrindo espaço à distinção entre ignorância empírica e limite estrutural, onde a própria pergunta não é possível.

Há fenómenos que incomodam não pelo que afirmam, mas por se recusarem a esclarecer-se. O caso da liquefação do sangue de São Januário pertence claramente a esta categoria. Não se trata aqui de devoção, nem de piedade popular, nem sequer de fé no sentido estrito. Trata-se de um fenómeno observado, reiterado ao longo de séculos, descrito por testemunhas qualificadas, e que resiste com teimosia às explicações correntes. Isso basta para torná-lo interessante — não como prova de coisa alguma, mas como problema, uma pergunta.

É precisamente esse carácter problemático que desencadeia, quase automaticamente, duas reacções viscerais opostas e simétricas. Ambas são confortáveis. Ambas são rápidas. E ambas estão erradas.

A primeira é a credulidade. Perante algo que não se encaixa facilmente numa explicação "natural", encerra-se a questão com a palavra “milagre”. O termo funciona como selo final: nada mais há a pensar, nada mais há a perguntar. O fenómeno é absorvido numa explicação que, embora respeitável no plano da fé pessoal, é vazia como explicação e usada como ponto final. Não esclarece; apenas desloca o incómodo para uma zona imune à análise.


Alguma pergunta?

A segunda reacção é o cepticismo reflexo. Usa palavras diferentes, mas opera do mesmo modo. “Ilusão”, “truque”, “fraude”, “ignorância medieval”. Também aqui não há explicação nenhuma; há apenas desqualificação preventiva. O fenómeno é descartado não porque tenha sido compreendido, mas porque não se quer tentar compreendê-lo. Fecha-se a questão por impaciência intelectual, não por excesso de conhecimento.

Estas duas atitudes, tão frequentemente apresentadas como opostas, são estruturalmente idênticas. Ambas funcionam como fechos prematuros do pensamento. Ambas evitam a pergunta difícil. Ambas substituem análise por rótulo, o problema por um falso muro.

Um sintoma cultural do mesmo erro aparece numa formulação banal, mas reveladora: “Como é que alguém pode ser cientista e ir à missa?”. A frase não pretende argumentar; pretende encerrar. Supõe uma incompatibilidade que dispensa exame. Tal como a credulidade, também este cepticismo funciona por reflexo condicionado: confunde planos distintos, ciência e religião, e transforma essa confusão num critério de exclusão. Não é um argumento; é um gesto de fechamento e fuga.

Antes de avançar seja em que direcção for — seja para defender, seja para desmontar fenómenos deste tipo — há uma pergunta prévia que raramente é feita, mas que é decisiva: é verdade que tudo é, em princípio, cognoscível? Se a resposta for afirmativa, então qualquer fenómeno não explicado é apenas um atraso provisório. Se for negativa, o terreno muda radicalmente.

Ora, essa tese, a da possibilidade de um conhecimento total, não é apenas discutível: é formal e demonstradamente falsa.

Aqui convém introduzir dois nomes que nada têm a ver com religião, devoção ou fenómenos históricos: Kurt Gödel e Alan Turing. Ambos trabalharam em domínios ideais e rigorosamente definidos do conhecimento. E ambos demonstraram limites internos ao próprio conceito de conhecimento formal.

Gödel mostrou que, em qualquer sistema suficientemente rico para conter a aritmética, existem proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas dentro desse sistema. Não por falha humana, nem por ignorância contingente, mas pela própria estrutura lógica.

Turing mostrou que existem, em computação, problemas perfeitamente bem definidos para os quais não existe, nem pode existir, um procedimento de decisão geral. Não por limitação tecnológica, mas por impossibilidade computacional.

O ponto decisivo é este: estes limites não surgem no mundo empírico, confuso e ruidoso. Surgem no coração de sistemas ideais, construídos para maximizar a clareza e o controlo. Se mesmo aí a cognoscibilidade total falha, então a ideia de que tudo no mundo natural será, em princípio, explicável é, no mínimo, um preconceito ingénuo.

Daqui resulta uma primeira conclusão intermédia, simples mas incontornável: não é legítimo abordar fenómenos incómodos partindo da convicção de que tudo se esclarecerá necessariamente. Essa convicção não é científica; é metafísica e pessoal. E, pior, é uma convicção já refutada nos seus próprios termos formais.

Chegados aqui, o terreno está limpo de ilusões confortáveis. Nem a credulidade que fecha demasiado cedo, nem o cepticismo que fecha por reflexo cultural, nem o optimismo do conhecimento absoluto sobrevivem intactos a este ponto. O que resta não é o mistério vago, mas o reconhecer que o conhecimento tem limites reais — e que ignorá-los é tão pouco racional como absolutizá-los.

É a partir daqui, e só a partir daqui, que se pode começar a distinguir tipos de desconhecido e a perguntar com rigor onde falha a resposta, onde falha a pergunta, e onde falham os próprios mecanismos e espaços conceptuais. Mas isso já pertence à segunda parte.

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