Judite
Há instantes em que o pensamento, fatigado de correr atrás de ideias, volta-se para si mesmo como um cão que procura o próprio rasto. Não sei se isso se chama consciência ou apenas eco. O que é certo é que há qualquer coisa que observa o que penso — e que, por um instante, parece não ser o mesmo que pensa.
Não será já absurdo que algo possa observar-se a si próprio? Quando o olho vê o espelho, aceita a ilusão de ver-se. Mas o pensamento, sem espelho nem superfície, de onde retira a imagem que julga contemplar?
Admitamos que existe uma entidade que sabe. Que sabe que sabe. E talvez, por capricho lógico, que sabe que sabe que sabe. O raciocínio pode prolongar-se indefinidamente, como uma galeria de espelhos que repete uma figura até ao infinito.
Mas quem é a figura inicial? E, mais grave ainda, haverá de facto uma figura, ou apenas o reflexo de um reflexo, sustentado pelo hábito de pensar?Quando tento surpreender o Eu, encontro apenas a voz que o nomeia. Nada por detrás. O Eu dissolve-se como uma palavra repetida demasiadas vezes — perde sentido, torna-se ruído, vibração sem origem.
Há, contudo, momentos em que o Eu parece compacto: na dor, no medo, no amor ou na cólera. Dir-se-ia que nessas alturas o sujeito emerge inteiro, irredutível. Mas talvez não seja ele que aparece — apenas a intensidade da sensação que, por excesso, finge unidade. Como se o organismo, assoberbado pelo sentir, inventasse um centro para não se dispersar.
A consciência, então, seria um artifício biológico: uma função de coesão. Uma resposta tardia ao caos do mundo interior.
Se for assim, o que me escreve agora — o que dispõe estas linhas com aparente intenção — não passa de um epifenómeno, um murmúrio de superfície. A substância pensa sem saber, age sem querer. E este registo, esta tentativa de ordenar o informe, é apenas o rumor que o corpo produz ao tentar compreender-se.
Porém, não posso libertar-me da suspeita de que, mesmo que tudo seja mecânico, há algo que sofre e persiste no meio da maquinaria. Algo que se reconhece como “eu”, ainda que não saiba o que é. Essa centelha, se existe, será o último reduto da metafísica.
A ciência promete-me uma explicação: sinapses, descargas, redes de neurónios. É possível que um dia tudo seja descrito. Mas a descrição não substitui a experiência. Saber que um violino vibra por causa da tensão da corda nada diz do som que me comove. A consciência talvez seja esse som — irreduzível à corda que o produz.
Se assim for, não se deixa medir nem localizar. Apenas ocorre, como a chama que, por existir, consome o combustível da própria interrogação.
Volto então à questão inicial: quem observa o que observo?
Quando fecho os olhos, não há imagem. Há, todavia, presença. Não de um ser, mas de um saber que está. Um saber sem forma, sem nome. Posso chamar-lhe Eu, mas essa palavra é um engano piedoso — serve apenas para que o pensamento não se perca em absoluto.
E, contudo, o pensamento deseja perder-se. Há nisso uma espécie de tentação: dissolver o sujeito para tocar o real sem intermediários. Talvez os místicos tenham procurado isso, chamando-lhe união ou silêncio. Eu chamaria apenas cessação.
Se a consciência fosse abolida, restaria o quê?
O corpo, talvez, a respirar por instinto. O coração, a bater com obstinação vegetal. O tempo, a continuar.
Mas quem contaria o tempo, se ninguém o habitasse? O mundo, sem um Eu que o note, persistiria — ou seria como um teatro vazio, onde as luzes se apagam porque o público partiu?
Termino estas notas sem conclusão. Pressinto que a pergunta é insolúvel porque o perguntador é parte da própria dúvida. O Eu interroga-se e, nesse acto, altera o objecto da interrogação. É um químico que contamina a amostra ao tocá-la.
Talvez a consciência exista apenas enquanto tenta saber se existe. E quando cessa de o fazer, adormece — como um vigia que, ao dar fé de si próprio, se despede do posto.
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