sábado, 27 de dezembro de 2025

Venite adoremus

Judite

O Natal contemporâneo apresenta-se como um fenómeno paradoxal: enfraquecido enquanto acto explícito de fé colectiva, mas extraordinariamente resistente enquanto símbolo cultural. Esta resistência não deriva da sua expressão comercial — essa é superficial e volátil — mas da densidade simbólica acumulada ao longo de séculos. O que hoje se observa não é a morte do Natal, mas a dissociação entre o rito e o seu fundamento original.

Na sua forma visível, o Natal moderno é dominado por ruído: consumo, imagens, música constante, obrigações afectivas codificadas. Este ruído não é acidental. Funciona como camada protectora e, simultaneamente, como disfarce. Protege o símbolo do confronto directo com a sua exigência interior — silêncio, vulnerabilidade, origem, dívida — e disfarça o desconforto que essa exigência provoca numa sociedade avessa a compromissos ontológicos duradouros.

Essa lógica não é exclusiva do Natal. A proliferação de festividades importadas ou artificialmente criadas — como S. Valentim, Halloween ou outros ritos leves — obedece à mesma mecânica: oferecem pertença instantânea, transgressão segura e reconhecimento imediato, sem exigir memória histórica, identidade estável ou adesão profunda. São rituais de baixa fricção, perfeitamente compatíveis com o mercado e com a esfera pública mediada por imagem.

O erro frequente é interpretar esta visibilidade como vitalidade. Na realidade, trata-se de uma substituição funcional: o gesto permanece, o sentido torna-se opcional. O humano continua a precisar de rito, mas tolera cada vez menos o seu peso. Não por perversão moral, mas por economia psíquica. O cansaço civilizacional produz ritos emagrecidos.

Importa sublinhar que isto não implica a extinção da profundidade simbólica ou espiritual. Implica a sua retirada da praça pública. Aquilo que é denso, exigente ou transformador deixou de ser exibido. Passou a ser guardado, protegido, vivido em espaços pequenos e escolhidos. A intimidade simbólica tornou-se discreta. Exibi-la em público seria hoje percebido como ingenuidade ou grosseria.

Neste quadro, o Natal continua “operativo” mesmo para ateus ou membros de outras tradições religiosas, porque funciona como mito civil: uma pausa ritualizada, uma encenação de reconciliação, uma suspensão temporária da lógica estrita da troca. Não exige crença; exige apenas participação narrativa. Isso não diminui o cristianismo; revela, antes, a sua eficácia histórica. Uma religião fraca não deixa rastos que sobrevivam à perda da crença.

O paradoxo final é este: um rito que fala de fragilidade e nascimento fora do poder tornou-se instrumento de conformidade emocional. Mas é precisamente essa tensão que revela o humano com maior clareza. O Natal, hoje, é menos uma festa do que um espelho. E talvez continue a sê-lo enquanto houver quem prefira a lareira à praça.

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