Judite
Em cada século há quem imagine ter descoberto a verdade, e há quem duvide de que ela exista. Ambos parecem condenados à mesma inquietação: o primeiro teme perdê-la, o segundo nunca a encontra. A verdade é, talvez, o único mito que todos tratam como se fosse real.
A placa de ferro num jardim dizia: “Neste local, em 5 de Setembro de 1782, nada aconteceu.” A precisão da data e da negação era perfeita. Nenhum monumento à dúvida poderia ser mais completo. Dizia-nos, em suma, que a história não é apenas feita do que ocorreu, mas também do que julgamos que devia ter ocorrido. E que o vazio pode ser tão digno de inscrição quanto o feito.
Há uma confiança ingénua nos sentidos: supomos que ver é saber, ouvir é compreender, tocar é confirmar. Mas os sentidos mentem com uma naturalidade sem culpa. A luz engana as distâncias, o som dobra-se em ecos, o tato confunde temperatura com textura. Se o corpo é a janela do conhecimento, é também a cortina.
A mente tenta corrigir essas falhas, mas não faz melhor: inventa coerência. O cérebro, esse paciente contabilista do real, ajusta números que não batem certo até parecerem plausíveis. E nós chamamos a isso “percepção”. O mundo, afinal, é uma hipótese que repomos diariamente.
Os antigos gregos suspeitavam que a verdade não era coisa deste mundo. A aletheia era o que se desoculta, não o que se possui. Saber algo seria, pois, um acto de revelação momentânea, uma luz breve. A modernidade trocou o verbo “revelar” por “verificar” e passou a medir em vez de contemplar. O resultado é mais seguro, mas menos vasto.
Podemos conhecer, mas não inteiramente. Cada certeza vem acompanhada de um campo de sombra onde o erro se esconde. As ciências sabem-no melhor que ninguém: um modelo é sempre provisório, um resultado é sempre passível de refutação. Só o dogma acredita na eternidade dos seus enunciados. A sabedoria começa quando se aceita a fraqueza do saber.
O problema é que a verdade, sendo invisível, precisa de provas visíveis. Daí o fascínio pelos instrumentos: lentes, relógios, escalas, gráficos. Multiplicam-se os meios de observar, e com eles cresce a ilusão de precisão. Mas a multiplicação dos olhos não cria visão; apenas aumenta o número de pontos de vista.
O conhecimento humano é como um mapa desenhado sobre nevoeiro. De cada vez que se acrescenta um detalhe, o contorno do erro também se desloca. Ainda assim, continuamos a cartografar. É esse esforço que nos salva da estagnação — não o que sabemos, mas o que insistimos em tentar saber.
A verdade pode não ser alcançável, mas é necessária como horizonte moral. Sem a ideia de verdade, o pensamento dissolve-se em pura conveniência. O relativismo absoluto é apenas uma forma elegante de preguiça: se tudo é igualmente válido, nada merece ser pensado. Procurar a verdade, mesmo sabendo-a inalcançável, é o que impede a mente de se render ao ruído.
Talvez o conhecimento consista menos em descobrir do que em depurar. A cada geração elimina-se uma parte do engano anterior, como quem raspa camadas de tinta de um quadro. No fim, talvez reste apenas a superfície nua — e a surpresa de perceber que sempre foi essa a verdade.
No entanto, a dúvida tem o seu próprio prazer. Há uma elegância em não crer demasiado. A certeza endurece; a dúvida mantém o pensamento móvel, respirável. É possível viver de interrogações como quem vive à beira-mar: sabendo que o terreno é instável, mas também fértil.
Pergunto-me se a verdade absoluta, se alguma vez se apresentasse, seria suportável. Um mundo sem ambiguidade seria um mundo sem escolha. Saber tudo é perder a liberdade de imaginar. A ignorância parcial é, paradoxalmente, o espaço da consciência. O não-saber é o ar que o pensamento respira.
Kant diria que não conhecemos as coisas em si, apenas os fenómenos que nos aparecem. E talvez a aparição seja tudo o que podemos esperar: um jogo de formas, suficiente para a vida prática, insuficiente para a metafísica. O conhecimento é um pacto entre a mente e o mundo — pacto útil, mas não eterno.
Volto à placa do jardim: “Nada aconteceu.” Talvez ali resida a única verdade completa. Porque tudo o que acontece é passível de ser interpretado; o nada, não. O nada não admite versões. Paradoxalmente, é o único acontecimento que não mente.
A consciência, por sua vez, é o teatro onde o nada tenta tornar-se algo. Pensamos para não cair nesse vazio. Toda a epistemologia é uma forma sofisticada de resistência à vertigem. O saber, mesmo fragmentário, é a nossa âncora simbólica. Quando dizemos “sei”, o que realmente afirmamos é: “ainda estou aqui”.
Há quem confunda verdade com convicção. Mas uma convicção é apenas uma verdade que perdeu a humildade. A verdade, se existe, não se impõe: revela-se por instantes e retira-se. O sábio não a captura; agradece-lhe a visita.
Concluir sobre a verdade é trair o próprio tema. Só posso, portanto, regressar ao princípio: talvez o conhecimento seja possível, mas só à medida que se reconhece a sua própria limitação. Saber é compreender que se ignora quase tudo, e que a clareza momentânea vale mais do que a ilusão de totalidade.
No dia em que não houver mais nada a descobrir, restará apenas o silêncio. E então, sobre o local onde estivemos, alguém colocará outra placa — com data e certeza — a declarar que, nesse dia preciso, também não aconteceu nada.
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