M. Claude e Baco — Notas de mais uma noite no Cabo Espichel
Gnósticos, alquimistas e físicos quânticos partilham uma intuição comum: o sujeito não está fora do sistema que observa. De Sophia caindo no caos por excesso de desejo da luz, ao orvalho de Maio que Barbault colhia com lençóis sobre a erva, da Sombra jungiana como cartografia do continente interior ao colapso da função de onda que envergonha os pragmáticos, o laboratório é sempre interior. Tradições separadas por séculos e por epistemologias radicalmente distintas convergem no mesmo ponto: a transformação da matéria e a transformação do operador são o mesmo processo. Unum vas, unum opus.
Há um fio que atravessa tudo isto, e ele é mais antigo do que qualquer das tradições que o expressam.
O gnóstico que desce ao caos à procura da luz perdida, o alquimista que estende lençóis no orvalho de Maio, o físico que descobre que o observador colapsa a função de onda — fazem todos a mesma pergunta: o que é que o sujeito faz à realidade que observa, e o que é que ela, por sua vez, lhe faz a ele?
